Google+ Followers

Seguidores

terça-feira, julho 03, 2012

SONO E APRENDIZAGEM: Avaliação do sono na fase escolar

 

*Luiza Elena Leite Ribeiro do Valle 


A plasticidade neural é a capacidade, que se observa no Sistema Nervoso, de processar adaptações perante novas situações. A aprendizagem representa uma forma de plasticidade neural, uma vez que ocorre a partir da consolidação da memória, tendo o sono importância fundamental nesse processo.


Compreender o fenômeno do sono em seus diversos aspectos, buscar soluções para seus distúrbios, significa a possibilidade de alcançar um rendimento satisfatório nas tarefas diárias, mais do que, apenas, ter uma noite agradável: ele será reparador. O indivíduo portador de distúrbios do sono, freqüentemente, não avalia as verdadeiras conseqüências desse comprometimento e se surpreende com sintomas paralelos, observáveis, tal como apnéia relacionada ao sono (parada respiratória), alteração cardiovascular, falta de controle sobre o ritmo sono-vigília e conseqüentes perigos de acidentes ou prejuízos pela falta de concentração. Na vida diária, o sono interfere no humor, na memória, na atenção, nos registros sensoriais, no raciocínio, enfim nos aspectos cognitivos que relacionam uma pessoa ao seu ambiente e que determinam a qualidade de seu desempenho e sua saúde.


O processo do Sono é regido pelo relógio biológico, moldado geneticamente, que se ajusta num ciclo de 24 horas. Ele se regula em conformidade com fatores externos, como ruídos, luzes, odores, hábitos locais, entre outros. Embora o tempo médio de horas de sono seja de 8 horas, há pessoas que necessitam de 12 horas, enquanto outras se satisfazem com apenas 4.


A quantidade e a qualidade do sono mudam com a idade. A capacidade de dormir bem diminui com o avançar da idade. Nos primeiros meses de vida, os bebês chegam a dormir até por dezoito horas no dia. “Técnicas de observação sistemática do neonato demonstram que é possível avaliar as características individuais do desenvolvimento e a complexidade do sistema nervoso central (SNC) expressas pela ontogênese do sono neonatal” (Schmutler, 2004, p.41). Esses estudos permitem analisar as diversas patologias que podem alterar a organização do padrão sono-vigília neonatal, tais como os distúrbios respiratórios (apnéias), mioclonia benigna neonatal e alterações diversas (Lombroso, 1993, citado por Schmutler,2004). Uma vez reconhecidos os distúrbios, pode permitir o atendimento preventivo ou o tratamento precoce.


O sono não é um estado homogêneo: são dois estados distintos de sono. Ocorrem movimentos rápidos dos olhos (Rapid Eye Movement – REM ) durante uma parte do sono sendo este chamado de sono REM. Ele ocupa apenas 20% do tempo total de sono (TTS) de um adulto e o restante é chamado de sono NREM (Não REM). Então, “o sono é uma condição especial ativa, gerado por regiões específicas do cérebro, de ocorrências cíclicas, alternando-se entre atividade menor (sono Não REM) e maior (sono REM), objetivando a manutenção da vida” (Vilas Boas & Valladares, 2007, p.28). O sono é iniciado pelo estado NREM e os estados NREM e REM se alternam. O estagiamento do sono é realizado pelo registro de três tipos de variáveis fisiológicas: pelas atividades cerebrais através do eletroencefalograma (EEG), pelo movimento ocular no eletroculograma (EOG) e pela atividade muscular no eletromiograma (EMG). São essas variáveis que possibilitam estagiar o sono REM e NREM. O sono NREM é composto por 4 etapas, em grau crescente de profundidade, alguns especialistas consideram a etapa zero ou estágio de vigília.


No primeiro estágio ocorre a transição entre o estado de vigília e o início do sono. Começam a predominar as ondas teta, em lugar das ondas alfa e o tônus muscular decresce, assim como o ritmo respiratório. Corresponde de 2 a 5% do TTS.


No segundo estágio há uma redução no grau de atividade dos neurônios corticais e verifica-se a presença de ondas em forma de fuso (complexos K) e menos 20% das ondas delta. Há também diminuição da temperatura do corpo, dos ritmos cardíaco e respiratório e um relaxamento muscular progressivo. Corresponde a 45 a 55% do TTS.


O terceiro estágio caracteriza-se por ondas delta, que se apresentam entre 20 e 50%. O tônus cai progressivamente e os movimentos oculares são raros. Corresponde de 3 a 8% do TTS.


No quarto estágio, as ondas delta estão 50% presentes. Há um pico de liberação de GH (hormônio do crescimento) e Leptina e o cortisol começa a ser liberado. Corresponde de 10 a 15% da noite.



O sono REM, que é o sono dessincronizado (padrão rápido e de baixa voltagem das ondas cerebrais) tem um padrão eletroencefalográfico semelhante ao de vigília, em repouso e de olhos fechados, ritmo alfa, predominante, intercalado por ondas tetas. Há uma atonia muscular. Ocorre emissão de sons e movimentos oculares rápidos, a respiração e o ritmo do coração se tornam irregulares.


Passamos quase um terço de nossa vida dormindo e, a qualidade de vida, a saúde e até a longevidade, podem depender de boas noites de sono. É durante o sono que as proteínas são sintetizadas com o objetivo de manter ou expandir as redes neuronais ligadas à memória e ao aprendizado. É do cérebro o comando da produção e liberação de hormônios, que interferem tanto no bem estar físico como no bem-estar psicológico, responsáveis por um sono tranqüilo.


A importância do sono se faz desde o início da vida, quando ocorre uma complexa construção psíquica e física, num constante processo de modelagem e adaptação que transformam cada um num ser único, com possibilidades ilimitadas e subjetivas, conforme as experiências são combinadas com as características próprias.


As crianças, em função do desenvolvimento, não estão ainda bastante amadurecidas para filtrar ou reparar as experiências vividas então, as impressões diárias são superestimadas por elas. A ansiedade de agradar ou o medo de ser repreendido, a dificuldade de conter impulsos ou expressar as emoções, podem tornar situações corriqueiras em verdadeiros conflitos, como em ocorrência comum de desentendimento com os amigos, desobediência aos pais ou mau resultado numa prova. Todas as vivências podem ficar aferrolhadas à espera do momento em que o corpo cede ao cansaço, mas os pensamentos reprimidos pela agitação se soltam. Os conteúdos dos sonhos, que escapam à crítica e à capacidade reflexiva, são representações de vida subjetiva e se manifestam nos eventos oníricos, nas ilusões, alucinações, inspirações artísticas. A atividade mental focaliza a atenção de forma mais fluida e promove associações de idéias nos sonhos.


Do ponto de vista psicológico, o sono não é um período passivo, inútil, como poderia parecer. É nesse momento em que a crítica consciente se afrouxa, se torna possível a elaboração inconsciente da personalidade, que absorveu do ambiente externo estímulos subliminares e todos os outros que a mente consciente não deu liberação para extravasar. É durante o sono que se desperta um encontro com elementos relevantes na história do indivíduo, que se consolidam as experiências vividas e favorecem a reformulação da significação dos símbolos assimilados na memória, dando-lhes sentido e entendimento.


“Não se trata apenas de manter a memória, de favorecer necessariamente as lembranças. A clínica no trabalho psíquico ressalta o valor da elaboração e construção a partir do trabalho com a história pessoal ou grupal, onde o movimento de apropriação de ser orientar para revelação contínua do self. O suposto alheamento promovido pelo sono favorece o retorno depois de revigoradas as energias.” (Leite, 2004, p.28)


Os distúrbios de sono são comuns em crianças e variam conforme a idade, podendo se manifestar como despertares noturnos, como terror noturno na idade escolar e como insônia e sonambulismo no adolescente. Alterações respiratórias ou distúrbios neurológicos pré-existentes podem ser a causa de fragmentação do sono, assim como outras manifestações: bruxismo, sonilóquio, sonambulismo, epilepsia ou enurese noturna. (Melluso Filho, 2004).


Os distúrbios que interferem na regulação do sono, da vigília, do apetite e do humor ligam-se ao desempenho relacionado à capacidade de flexibilidade atencional e específicas dificuldades na atenção dividida, influenciando os processos de memória e de aprendizagem.


Os estudos que verificam a prevalência de distúrbios do sono na população infantil podem permitir observar sua evolução de acordo com as faixas etárias, gênero e classe sócio-econômica, como alcançou o trabalho que aborda a prevalência de sonambulismo, terror noturno, bruxismo durante o sono, factatio capitis nocturnus, enurese e pesadelos, realizado com o Questionário de Sono Reimão Lefèvre (QRL) (Reimão, Lefèvre & Diamond, 1982). Utilizando este questionário em crianças escolares, consideradas normais, de três a dez anos, entre inúmeras conclusões, foi possível apontar que “crianças que dormem menos ou com pouca qualidade têm muitas vezes baixo rendimento escolar” (Gonçalves & Reimão, 2004).


O QRL aborda os diversos distúrbios de sono da infância, com questões simples para serem respondidas pelos pais, mas seu alcance se mostra bastante denso, levantando dados que envolvem a prevalência das desordens observadas, com riqueza de detalhes nessa ocorrência porque classificam cada sintoma pela intensidade de sua freqüência, além de relacionar os comportamentos diários, o sono, os hábitos familiares e as tarefas esperadas entre as atribuições infantis.


Este presente estudo pretende contribuir para levantar as principais queixas relativas ao sono em escolares, tendo por objetivo colaborar com pais e profissionais que orientam crianças de seis a nove anos, possibilitando a adoção de atitudes e programas de adequados e eficientes na prevenção de distúrbios do sono.


Utilizou-se o referencial teórico relacionado aos itens do QLR, que tem como objetivo detecção e freqüência dos distúrbios do sono infantil em geral (Araújo, Reimão, Inocente, Lima, Angelis, Turco et al., 2007), para investigar a higiene do sono e atitudes básicas que precisarão ser desenvolvidas como recursos aplicáveis à vida familiar e social, de forma a favorecer a qualidade do sono infantil, exaltando sua importância.


O QRL foi aplicado em 258 crianças na faixa entre 6 a 9 anos de idade, em cinco escolas de primeiro grau, sendo 4 da rede particular de ensino e uma da rede pública, da cidade de Poços de Caldas, a saber: Escola A - 33 crianças, Escola B - 54 crianças: Escola C - 72 crianças, Escola D - 60 crianças e Escola E - 39 crianças.


Ao avaliar o sono, de acordo com as respostas dos pais ao QRL, foi possível verificar que muitos pais não consideram que ocorrem grandes problemas no comportamento dos filhos: são poucas as queixas de agressividade (apenas 13 crianças foram apontadas como agressivas entre as 258 avaliadas), são carinhosos (apenas 9 crianças não foram citadas como carinhosas), fazem amizade com facilidade e, nessa faixa etária, optam pelos pares do mesmo gênero e idade semelhante, em geral. As queixas mais freqüentes giraram em torno de comportamento ligados à ansiedade, principalmente (roer unhas, 21,3%). Entretanto, nas questões que se referem a distúrbios do sono, propriamente, encontrou-se um número significativo de indicadores como: se mexer na cama (53%), falar quando está dormindo (39,9%), ranger os dentes (36,4%), sentar-se ou andar dormindo (22%), ter sonhos ruins e medo (47,6) ou roncar (24,8%). Cerca de metade dos avaliados acordavam durante a noite alguma vez (48,4%) e, alguns, ainda apresentavam enurese noturna (6,5%). Muitos dos analisados não acordavam espontaneamente (57,3%) e os pais afirmaram que, se os filhos não tivessem que levantar para ir à escola, eles dormiriam até mais tarde todos os dias (37,9%), mas, em geral, os responsáveis não consideraram que a sonolência atrapalhe os filhos em suas atividades.


A avaliação das características detalhadas do sono permite determinar melhor os distúrbios que ocorrem com crianças em idade escolar, especialmente por não se reconhecer o sono como um problema que mereça ações práticas na promoção da saúde, considerando que poucos pais (apenas 4,2%) já procuraram consulta médica para o filho “por ter problemas durante o sono” e, talvez os próprios profissionais de saúde infantil não investiguem suficientemente estas questões para orientar sobre como lidar com elas.


Resumindo os dados citados acima, entre os distúrbios levantados através do QRL, podemos destacar aqueles que se mostraram com uma incidência mais significativa: distúrbios de movimentos relacionados ao sono (53% das crianças avaliadas se mexem muito na cama durante o sono), sonolência (57,3% das crianças não acorda espontaneamente e 37,9% continuaria dormindo se pudesse), insônia (48,4% das crianças acordavam durante a noite alguma vez). Foram citados, ainda, nas respostas dos pais ao QRL: ranger de dentes (bruxismo), sentar ou andar dormindo (sonambulismo), falar dormindo (sonolóquio), pesadelo (ter sono ruim ou medo), terror noturno (gritar sem motivo quando está dormindo), roncar e urinar durante o sono (enurese).


As desordens de movimentos do sono são manifestações do sistema nervoso motor e/ou neurovegetativo, que ocorrem durante o sono ou na transição sono-vigília. De modo geral, não têm base orgânica, são de reduzida intensidade e transitórias. Os distúrbios de movimentos relacionados ao sono, geralmente, ocorrem no período inicial do sono, têm início após o primeiro ano de vida, são intermitentes e tendem a diminuir com a idade. Há um histórico familiar positivo, embora sem alteração orgânica ou metabólica associada.


As múltiplas desordens da vigília e do sono, como Sonolência (desejo de permanecer dormindo) ou Insônia (demora muito para adormecer ou acorda durante a noite) são freqüentes, atingindo a maior parte das crianças, em algum período da vida. Podem afetar intensamente a qualidade de vida e, mesmo, colocá-la em risco, em alguns casos e, muitas vezes, não são reconhecidas porque são atribuídas a fatores como acaso, sem avaliação especializada.


Bruxismo é considerado um distúrbio de movimento relacionado ao sono, explicado como movimento rítmico e repetitivo dos músculos de mastigação durante o sono, sendo originado por fatores sistêmicos, psicológicos, ocupacionais (hábitos de morder objetos, lápis) e oclusão (Kogler, Sobreira, Duarte, Crivello, Garrido & Reimão, 2007).


Sonambulismo (falar, andar ou executar alguma atividade durante o sono, na cama ou fora) é uma das parassonias mais freqüentemente relatadas. O sonambulismo pode ser acompanhado de outros distúrbios: Enurese (urinar quando está dormindo), Terror Noturno e Sonilóquio (falar dormindo).


Pesadelos ocorrem na fase do sono REM, sendo assim, realmente um sono de angústia (Proença & Reimão, 2004), ao contrário do terror noturno, quando os registros polissonográficos mostram que atividade autonômica é muito maior, ou seja, são uma descarga psíquica pobre em representação imaginária. O Terror noturno pode ser descrito como um grito de terror sem motivo, acompanhado por intensa descarga autonômica, freqüentemente associada à atividade motora estereotipada e repetida (Rossini & Reimão, 2007).


Ronco é ligados à respiração bucal. O ronco evolui da respiração bucal crônica e podendo culminar em distúrbios obstrutivos respiratórios do sono como a apnéia do sono (Albertini & Reimão, 2007).


Enurese Noturna é a incontinência urinária noturna. A incidência diminui progressivamente na infância, sendo que aos seis anos de idade apenas 5% das crianças a apresentam ( Reimão, 1996).


Concluindo, acredita-se que o estudo dos distúrbios do sono precisa ser incentivado, em sua atuação multidisciplinar, em função dos prejuízos que podem causar a vida do ser humano. Os hábitos de dormir variam na infância, em função de fatores fisiológicos e sofrem influências culturais (Reimão, Souza & Gaudioso, 1999). Para Bronfenbrenner (1990, citado por Valle & Guzzo, 2004), a família e a escola são sistemas sociais importantes para a promoção do desenvolvimento do caráter e das competências humanas. A criança incorpora as experiências e a estimulação que a cerca, adquire e digere as propriedades ambientais, ou não se desenvolve. As experiências vivenciadas alimentam as estruturas funcionais das crianças que estão nos primeiros estágios da sociabilidade, determinando a qualidade de seu desenvolvimento mental e provocando o próximo estágio de organização organismo-ambiente (Valle & Guzzo, 2004).


Para que as crianças desenvolvam hábitos envolvendo as questões relativas à higiene do sono, pais e educadores precisam ser alertados na forma de prevenir distúrbios futuros e valorizar a necessidade de um sono satisfatório para o desenvolvimento, adaptação e aprendizagem do jovem estudante.


É necessário intervir precocemente com uma adequada higiene do sono, diagnosticar as situações de crise, responsáveis pelo comprometimento do sono, porque essas situações interferem diretamente na qualidade de vida desde a infância.


A profilaxia da maior parte dos casos depende de orientação multidisciplinar no acompanhamento dos hábitos de sono das crianças.


Fonte: http://www.congressodeaprendizagem.com.br